11.08.2008

A minha avozinha querida

Nao percebo como 'e que uma pessoa tao enraizada como eu que so precisa de estudio cheio para trabalhar, amigos e familia se mete nestas alhadas de viagens na India e estudar em Inglaterra...
Aquilo me mais me custa nestas situacoes 'e a falta que sinto das pessoas. Estou sempre a imaginar que um dia venho a estes sitios com com os meus pais, os meus avos, a minha irma... e por a'i fora... sim porque a coisa nao tem piada se ainda estivermos a sentir saudades. Aquilo que mais queria enquanto ando nestes furacoes de confusao era poder parar e estar umas horas 'a conversa com os meus av'os na sala. 'E sempre um momento l'ucido, quente, esclarecedor, doce e terno...
Como o meu avo ja teve direito a um texto enquanto estava pelas terras de sua majistade agora 'e altura de contar alguns pormenores do que a minha av'o 'e para mim. Seria impossivel propor-me a contar mais do que uns pozinhos do que a matriarca e pilar da familia Viana 'e para este neto por ela tamb'em criado... mas aqui fica de qualquer maneira:
A minha av'o 'e uma mulher linda, inteligente e contemporanea cujo sonho era ter uma familia cheia de amor a partir do momento em que conheceu o meu avo. Escusado ser'a dizer que conseguiu atingi-lo e mostrar esse caminho a todos os seus filhos. Ela poderia ter sido medica com toda a facilidade, mas tambem podia ter sido pol'itica (de um tipo que nao aparece), artista, cientista... tudo o que se pode pensar ela tinha em potencial. Em vez de usar o seu tempo para uma carreira resolveu partilha-lo com todos n'os que tivemos o previl'egio de ter nao s'o as nossas consciencias abertas para todas as realidades que a apaixonavam mas tamb'em e principalmente sentir um amor profundo, inesgotavel e absoluto em todos os momentos que a procuramos.
A minha avozinha querida (como ela adora que eu a trate) nao s'o lutou contra ditadura ao lado de comunistas, como procurou, encontrou, implementou e cultivou tudo o que a religiao pode ter de melhor. Nao adianta aqui referir a dimensao tradicional da minha avo porque o retrato 'e insuficiente. Ainda assim em todos momentos ela conseguiu trazer 'as nossas vidas tudo o que ha de delicioso como os bolos e cozinhados, as camisolas de la para o inverno, as toalhas de croch'e, a cultura crista profunda (mais do que capaz de questionar, ver o que serve o amor e o que nao passa de uma construcao do homem - como ela sempre me disse).
Mas tamb'em nao adianta sequer comecar a referir como ela 'e revolucionaria, como esteve profundamente activa antes e depois do 25 de Abril, como mudou a vida de toda a gente que lhe bateu 'a porta: de mendigos, a filhos de amigos, colegas de escola dos filhos, hippies, drogados, netos, filhos e marido... todos e cada um tinha o seu coracao por inteiro, o seu efeito anti-depressivo imediato, a sua ternura das palavras e dos actos. A conclusao 'e simples a minha av'o salvou o mundo dela. Seja ele a sociedade com que contactava, ou filhos e netos que passavam fases mais complicadas.

Mas falando de coisas mais especificas para nao ficar assim tudo no ar:

Os filhos nos loucos anos 60 entraram num estilo de vida diferente. Naturalmente os concertos, as festas, os namoros, etc... as hist'orias comecam todas num quarto de brincar adaptado para salao de festas. Sucederam-se as festas da flor, o jimi hendrix, o rock progressivo etc... Nada disto lhe fez confusao. Antes pelo contrario, acompanhou a par e passo a juventude e manteve-se jovem com eles. Quando nasci a minha avo era muito mais jovem do que qualquer uma das professoras de escola que conheci. Alerta para tudo e compreendendo profundamente todas as transformacoes que a vida sofreu durante o seculo XX a Carmo Viana estava pronta para o s'eculo XXI uma ou duas decadas antes de ele chegar. Nunca a censura parou um livro de entrar la em casa. Nunca uma conversa teve qualquer tipo de limites: nem sexo, nem drogas, nem politica, nem religiao... o amor pode muito.
H'a alguns episodios que definem a forca da minha av'o: o que ela ainda hoje pensa sobre o unico estalo que deu a um filho depois do meu tio Paulo ter "fugido" de casa 'e no minimo excepcional. Esse estalo foi dado com tanto amor (isto para mim 'e a verdade absoluta) que aquele filho estava automaticamente salvo por mais umas decadas.
Outra coisa que nao pode passar em claro 'e que a minha av'o estudou com todos os filhos e netos que la ficaram em casa 'a tarde. As explicacoes de frances safaram-me sempre o suficiente para ter 5. A matematica era o jogo que jogavamos de vez em quando. Os bejicos (bolos que so ela sabe fazer) acompanhavam a conversa e o ch'a com hist'orias magicas de 'africa, auroras buriais na parede, raios c'osmicos verdes e vermelhos... era tao vasto que podiamos estar numa de geologia e numa de curtir as formacoes rochosas da praia, como podiamos ler o apocalipse ou o genesis para perceber o que s'o poderia ser metaforico e o que tinha uma mensagem mais profunda.
So para terminar nao posso deixar de vos contar que a bisneta Ines e os netos mais novos Manel e Vera continuam a receber a forca inesgotavel desta mulher tao maravilhosa que a minha habilidade de escrita nao chega para retratar. Esta bisneta h'a uns meses estavam tao confiante da juventude da sua bisav'o que resolveu desafia-la para saltar a p'e cochinho de pedra em pedra na sua escola at'e ao portao onde o carro as esperava com o meu avo. Claro que super Carmo Viana nao poderia nunca recusar mais uma chamada 'a vida e a partir desse momento demonstrou-me que na sua oitava d'ecada de vida continua pronta para todos os desafios. Continuam a actualiza-la e ela a orientar o surgimento das suas consciencias cr'iticas face aos morangos com acucar e a dar-lhes tudo o que ha de sagrado na vida dos homens e dos deuses: AMOR e a determinacao de fazer todos falizes 'a sua volta.

6 comments:

Anonymous said...

É impossivel deixar de comentar o q. escreveste sobre a tua querida avozinha: ela também é aminha irmã M.do Carmo q. sempre adorei e cujo nome dei à minha filha+velha.Bjj. e continuação de boa viagem!

Anonymous said...

Grande Manel:

Temos acompanhado e apreciado devidamente a tua viagem. Como estás em Goa, descobre onde era o condado de Mahem. É aí perto. Se puderes vai lá, fotografa, tem um lago, creio que uma fonte...
Enfim é uma actividade cultural.

Abraços,

ico e manuela

presstige said...

Olá Manel, já que nasci demasiado tarde para conhecer as minhas avós "de sangue", ou elas morreram demasiado cedo, nao posso desejar ter uma avó assim. Mas um neto como tu?!
Um grande beijinho, e até à versao portuguesa das fotos!
Lina
P.S. Para de nos fazer sofrer...

Anonymous said...

Manel
É lindo o que escreveste sobre a tua querida avozinha!!!

O teu tributo conseguiu dar-me - a mim que não tenho o prazer de conhecer a tua avó- uma noção muito real dos principais traços da sua personalidade. E já a admiro...

Que bom ter um neto assim...

Beijinhos
Aurora

Marta said...

Realmente o Manel tem um dom com as palavras; e dificil dizer tudo o que um coracao enorme pode sentir..
Mas a Avo Carmo e uma grande inspiracao!!!

Anonymous said...

Mano Gordo,

grande viagem e belissimo texto sobre a incomparável e querida avó.

beijos para os dois,
Miguel